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‘Perdi em um dia o que construí em 40 anos’, diz morador de epicentro de temporal na Bahia

“Perdi em um dia o que construí em 40 anos”, disse Salomão, enquanto abaixava a cabeça com os olhos marejados e olhava para dentro do estabelecimento com produtos revirados e cobertos de lama.


O vaivém de helicópteros, tratores e caminhões carregados de entulho ainda não havia começado, mas os moradores do distrito de Nova Alegria, no extremo sul da Bahia, já estavam desde cedo nas ruas munidos de vassouras, enxadas e rodos para limpar o que sobrou de suas casas.
 

O distrito de 3.500 habitantes, na zona rural de Itamaraju (661 km de Salvador), é cercado por fazendas de gado, café e eucalipto. As ruas centrais são pavimentadas com paralelepípedos, mas nesta terça-feira (14) era raro enxergar um metro de chão que não estivesse coberto por lama.
 

Depois de três dias ilhados na parte alta da cidade, sem acesso à zona urbana de Itamaraju, a leste, e à cidade de Jucuruçu, a oeste, os moradores finalmente começaram a voltar para suas casas depois que a água do rio do Prado começou a baixar.
 

Uma semana após as primeiras chuvas atingirem a região, Nova Alegria vive um cenário de guerra, com casas destroçadas, paredes tombadas e montanhas de móveis, objetos e papéis amontoados nas calçadas.
 

O cenário é resultado dos temporais que atingem a Bahia desde a última semana e já causaram a morte de 11 pessoas. São 51 cidades em situação de emergência, 6.371 pessoas desabrigadas, 15.199 desalojadas e cerca de 200 mil atingidas pelos efeitos das chuvas.
 

Em Nova Alegria, a cheia do rio fez com que a água avançasse e superasse o nível do telhado das casas. Parte delas tombaram inteiras, outras, parcialmente. As que se mantiveram de pé têm trincas e rachaduras e devem ser condenadas pela Defesa Civil.
 

Nas ruas, o cheiro forte de lama se misturava ao de animais mortos que ainda não foram recolhidos –em uma das casas, uma leitoa foi arrastada pela correnteza até morrer enganchada no telhado. Até o início da tarde, seguia pendurada enquanto, no céu, urubus voavam em círculo.
 

Em frente às suas casas, moradores choravam suas dores. Morador de Nova Alegria há quatro décadas, Laudelino Rodrigues Salomão, 70, mantinha um pequeno mercadinho na localidade que foi devastado pelas águas da enchente. Todo o estoque foi perdido em questão de horas.
 

“Perdi em um dia o que construí em 40 anos”, disse Salomão, enquanto abaixava a cabeça com os olhos marejados e olhava para dentro do estabelecimento com produtos revirados e cobertos de lama.
 

Ele estava em sua roça quando soube que a água do rio subia rapidamente. Voltou para o distrito, mas não teve tempo de salvar as mercadorias e móveis do mercado. Só conseguiu correr para a parte mais alta da vila e se abrigar em segurança.
 

Algumas casas adiante, mas na mesma rua, Sinival Sérgio de Jesus, 69, mostrava as roupas que ficaram presas no telhado dentro da casa vazia, enquanto os móveis viraram entulhos.
 

Jesus conseguiu salvar os diplomas da filha e as fotos dos pais que estavam penduradas na parede da casa: “Deus deixou a foto na parede para que eu me lembre de meu pai e minha mãe”.
 

Na casa ao lado, Elane Ribeiro Silva, 60, contava que conseguiu levar a geladeira, o colchão e alguns objetos pessoais para a laje de um vizinho, que tem dois pavimentos.
 

Mas o esforço foi em vão, já que a água atingiu também o nível do segundo andar, e a força da correnteza carregou o que havia sido guardado.
 

A casa, que havia passado por uma ampliação concluída há apenas um mês, ficou de pé. Mas tudo o que estava dentro foi perdido.
 

Na manhã desta terça, ela recolhia os móveis estragados e os trazia para o meio da rua. Enquanto contava a dimensão dos estragos, chorava e fazia também chorar um técnico da empresa de eletricidade responsável por reparos na vila –a rede de energia da comunidade foi suspensa para evitar choques.
 

Silva conta que já houve outras enchentes na região, mas nada comparado ao que aconteceu na última semana. “Já tivemos chuva que entrou na rua e alagou muito. Mas, para arrasar mesmo, foi agora. Essa daqui foi para contar história”, disse.
 

Nascido e criado em Nova Alegria, Jair Sales, 70, lembra com detalhes da última vez que o rio encheu e chegou ao distrito com tamanha fúria. Também foi em um mês de dezembro, mas em 1968, que as casas de taipa foram atingidas e o barro que as sustentava derreteu, misturando-se à lama que veio do rio.
 

O estrago na época foi grande, mas não chegou nem perto ao que ele assistiu agora. “Este ano foi feio, a água chegou muito rápido.”
 

Além das perdas materiais, o desastre potencializou a situação de vulnerabilidade da maioria das famílias de Nova Alegria. A maior parte dos moradores trabalha no campo, mas são poucos os que têm a própria terra. Em geral, fazem pequenos serviços de maneira informal para fazendas da região e ganham por dia.
 

Sem casas, sem móveis e sem objetos pessoais, dizem estar preocupados com o porvir. Temem ficar esquecidos após cessarem os trabalhos de retirada de entulhos e desobstrução das vias.
 

Com um telefone celular erguido nas mãos, a professora Rosilda Oliveira Rios, 49, gravava um vídeo para publicar na internet pedindo ajuda para a comunidade e mostrando a situação da vila após a enchente.
 

A escola municipal em que dava aulas de história foi devastada –paredes ruíram e o teto desmoronou. Em frente, uma pilha de brinquedos, cartilhas, livros escolares e documentos se amontoava em meio à lama.
 

A força da água também arrancou o telhado de sua casa e levou os móveis. “Eu nunca achei que fosse viver isso. Parecia coisa de filme, coisa de novela. Parecia um pesadelo que nunca ia acabar”, descreveu.
 

Quando a chuva chegou, ela e a filha correram para a parte mais alta da cidade, onde ficaram três dias isoladas –sem água, sem energia, sem internet e sem mantimentos básicos. Tinham dois litros de água por dia para tomar banho.
 

Quando a água começou a baixar, ela, o marido e a filha foram para a casa dos sogros na cidade vizinha de Jucuruçu, também atingida pela tempestade.
 

Conseguiram retornar para Nova Alegria apenas no domingo (12), quando tiveram noção do tamanho da devastação da casa. “Eu fiquei sem nada, não tenho um colchão para dormir.”
 

Nesta terça-feira, uma força-tarefa com equipes da prefeitura de Itamaraju, Exército, Defesa Civil estadual, além de voluntários, prestava apoio às comunidades locais.
 

Pacientes com quadros de saúde que inspiravam cuidados foram levados de helicóptero até a zona urbana de Itamaraju.
 

Estradas que dão acesso ao distrito também estão danificadas. A rodovia estadual que parte da BR-101 na altura de Itabela está intransitável. Na estrada junto ao povoado de São Paulinho, uma ponte cedeu e ainda não foi recuperada.
 

O terceiro acesso, próximo à zona urbana de Itamaraju, foi aberto há cerca de três dias após a construção de desvios nas pontes que cederam. Para percorrer os 60 km de estrada, contudo, é preciso paciência e cuidado redobrado, já que a terra cedeu em diversos pontos e segue sobre a pista.
 

As dificuldades não impediram, porém, que uma rede de solidariedade chegasse nesta terça ao distrito para distribuir alimentos e roupas. Empresários da região, líderes de igrejas evangélicas e o MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) estão na linha de frente.
 

Mesmo com o apoio, moradores dizem temer que o isolamento da comunidade atrase a reconstrução das ruas e das casas. Eles têm como preocupação adicional a falta de trabalho, já que a enchente devastou as plantações das fazendas do entorno.
 

“Aqui, quem era melhorzinho, ficou pobre que nem a gente”, resumiu Elane Silva, que de pronto ouviu do marido, Liosvaldo Marques, 75: “Foram todos ficar embolados em um canto só”.

por João Pedro Pitombo e Eduardo Anizelli | Folhapress

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