Moara Sacchi: ‘Sofri racismo, virei chacota na escola e hoje sou modelo’

Santo André me fez ser quem sou hoje.


19 de dezembro de 2019 15:28

Filha de um italiano e uma carioca, a baiana Moara Sacchi, 21 anos, começou a sofrer racismo pesado ainda pequena, aos 6, quando foi estudar em uma escola particular: era a única negra da escola. Logo começou a alisar o cabelo, usava pregador tentando afinar o nariz e pó compacto claro no rosto. Diante do sofrimento da filha, sua mãe, que era militante, criou uma ONG voltada para a cultura negra. Pouco a pouco, Moara foi se descobrindo e hoje realiza seu sonho de infância: é modelo e acaba de desfilar para a São Paulo Fashion Week.

Meus pais se conheceram no Rio de Janeiro, há mais de 35 anos: ele, italiano, e ela, carioca. Meu pai se formou em Filosofia e sempre quis ir contra o sistema capitalista, então largou a carreira de publicitário em Milão e veio ser paisagista no Brasil. Minha mãe era figurinista e produtora cultural. Mas ele decidiu comprar um terreno em um vilarejo na Bahia, convidou ela para ir junto e ela topou. Era em Santo André, que faz parte da cidade de Santa Cruz Cabrália e que na época não tinha nem energia elétrica.

Eles já tinham a minha irmã, Marina, quando eu nasci, em Belmonte, também ali pela região — a gente morava em Santo André, mas as duas ficam perto. Santo André é pequena, com 800 habitantes, um povoado de pescadores. É um lugar que recebe muitos turistas, é uma das principais fontes de renda de lá.  Meu pai nunca se preocupou muito em poupar. A gente nunca teve muita grana, mas também não passamos muito perrengue. Enquanto morei em Santo André, desfrutei de tudo o que a vila tinha de melhor, desde a natureza até arte, porque, apesar de ser uma vila pequena, existem diversos projetos sociais lá. Participei de todos, a minha família sempre valorizou muito a arte e a cultura, foi a minha sorte, o que me fez ser quem sou hoje.

Ali, a gente convivia com crianças brancas, negras, ricas, pobres, enfim, as mais variadas. Eu sofria racismo, mas tinha amigos, então não me afetou tanto. Por conta do trabalho dos meus pais, tivemos que nos mudar para Arraial D’Ajuda, distrito de Porto Seguro. Fui estudar em uma escola particular, porque lá tinha mais opções. Eu era a única negra do colégio. Sofri muito racismo, desde o primeiro dia. Quando todos recebemos juntos a lista do material escolar, o primeiro item era o carvão vegetal. Pronto: eu virei o ‘carvão vegetal’ da sala. Depois, teve gente que não quis fazer tarefa de grupo comigo, por conta da minha cor, do meu cabelo, falavam do meu nariz, enfim, tudo isso. Virei chacota da escola. Eu tinha seis anos.

Isso fez com que eu crescesse com uma autoimagem extremamente negativa. No momento em que eu sofria o racismo, tentava disfarçar: ‘Ai, está tudo bem, eu não estou nem ligando para o que vocês estão falando.’ Mas chegava em casa e desabafa. Meu pai buscava diversas referências para me mostrar que eu era linda, sim, que existiam outros padrões de beleza. Ele me trazia livros, filmes, músicas de personalidades afrodescendentes. Só que, ao mesmo tempo, lá fora, estava todo mundo me apontando o dedo e dizendo o contrário.

Outra coisa que me magoava era que, nessa sociedade racista em que a gente vive, toda vez que eu saía com meu pai, as pessoas viam um velho pedófilo e uma criança negra sendo vítima. Isso me doía e me dói muito. Já aconteceu de a gente estar na balsa, porque para ir a Santo André precisa pegar uma, e chegar o pessoal conselho tutelar porque alguém tinha denunciado. Até hoje, quando saio com ele, fico vendo os olhares das pessoas e tentando não deixar que isso me afete.

Aos sete anos, comecei a alisar o cabelo, depois de muito chorar para os meus pais, porque eles não queriam deixar. Também passava pó compacto claro e usava pregadores no nariz. Eu me machucava todos os dias tentando me encaixar em um padrão que não era o meu, que não era para mim, porque me impunham aquilo o tempo inteiro. Acreditava que eu só seria aceita se fosse como as outras meninas.

A minha mãe, como militante do movimento negro do Rio de Janeiro, foi procurar alguma instituição à qual ela pudesse recorrer. Só que não tinha nada no extremo sul da Bahia. Foi aí que ela teve a ideia de fundar o Instituto Sociocultural Brasil Chama África, que é a nossa ONG, em 2007. Ela me levou para participar junto dela das ações da organização, e eu fui crescendo com uma outra carga de referências. Eu já estava entendendo que não era bem aquela história, com todo mundo me apontando o dedo e dizendo que eu era horrorosa: tinha um outro caminho, um outro padrão, havia outras pessoas, talentosas e negras também. Fui conhecendo a minha história.

Minha mãe e os parceiros fundaram a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial para lá. Passamos a fazer a Semana da Consciência Negra: a gente faz ações nas escolas e praças públicas para enaltecer a cultura afro-brasileira, da estética à história. Hoje em dia, é o Novembro Negro, um mês inteirinho.

Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse. Eu disse que queria ser modelo. Olharam para mim e falaram: ‘Ah, mas para ser modelo, tem que ser bonita.’ Eu lembro até hoje desse momento. Fiquei meio triste, claro, eu era criança, contando meu sonho, como é que a pessoa vira e fala aquilo para mim? Só que eu sou aquariana, né? Super do contra (risos). Eu falei: ‘Já que eu não posso ser, agora é que eu vou ser mesmo: vou crescer, vou ficar bonita e vou ser modelo.’ Depois, fui para o quarto chorar. Mas foi o pontapé para eu me interessar por esse mundo.

Minha mãe me colocou em um projeto chamado Modelo de Vida, idealizado por uma ex-modelo que foi para Arraial D’Ajuda e resolveu fazer esse curso. Durou três meses. Fizemos aulas de etiqueta, de passarela, de como desfilar. Isso me deu uma base legal. Também fiz aula de balé, dança contemporânea, expressão corporal e depois eu fui para a dança afro. Foi também no momento da minha transição, da minha autoaceitação. Eu queria mais buscar coisas que tivessem a ver comigo e com as minhas raízes. Fiz ainda aulas de música, flauta, violino, viola clássica. E capoeira, que também me ajudou muito.

Sempre ficamos meio lá, meio cá nas cidades da região, porque meus pais sempre trabalharam em Porto Seguro. Quando eu tinha nove anos, voltei para Santo André e fui estudar em Cabrália. De lá, fui estudar em Porto Seguro, que tinha uma escola melhor. Era pública: eu tinha pedido aos meus pais para ir para uma, por conta de todo o racismo que sofri na particular. Tinha mais alunos negros, mas também não foi diferente, não. Mas, com o tempo, eu fui abstraindo o máximo que podia, pegando só aquilo que me fazia bem.

Tinha um menino que pegava muito no meu pé. Toda vez esperava eu passar no corredor para falar alguma coisa muito ruim de mim. Hoje ele é meu amigo, porque eu não guardo rancor de ninguém. Só que ele era negro e gay. Eu entendi que, quando você sofre racismo, ou qualquer tipo de preconceito, tem vários caminhos possíveis, mas vejo dois como principais: ou você se torna um agressor também ou você se intimida e quer sumir. Eu fui por um tempo essa que se intimidou e quis sumir. E ele foi um dos que sofreram muito bullying, e resolveu atacar também. Por isso eu não guardo rancor. É um dos meus melhores amigos hoje. Por ser gay, ele sofria em casa, então era mais difícil. Eu sofria racismo na rua, mas, quando chegava em casa, tinha muitas pessoas para me acolher.

“Era considerada feia, mas gente boa”

O efeito do racismo na minha vida afetiva também foi horrível. Eu era considerada feia, mas gente boa. Então os meninos se aproximavam de mim para que desse um recado para as minhas amigas consideradas bonitas. Às vezes, era o menino que eu queria ficar. Isso foi ruim na minha adolescência.

Mas, pouco a pouco, com a ONG, comecei a me aceitar enquanto negra, passei pela transição capilar. Comecei a olhar para o meu rosto de uma outra forma, a aceitar o meu nariz, a minha boca, os meus traços, a minha cor de pele. Parar de me esconder, né? Porque, na verdade, não tem por quê. Aos 14 anos, cortei o cabelo e passei a usar trancinhas, box braids (que mistura cabelo sintético com cabelo natural). E também foi difícil sair das tranças, porque você ficou com o cabelo comprido, que era o sonho de toda menina negra na minha época, aquela coisa, cabelos ao vento, tudo o que passava na mídia.

Fui estudar sobre moda e entendi que ela é um agente transformador: tem um poder muito grande. A maneira como eu me visto é um ato político. Quando eu saio usando tecidos africanos, búzios, todos os acessórios que dizem quem eu sou, as pessoas me olham e já sabem mais ou menos a que ‘tribo’, digamos assim, eu pertenço. Pode causar um impacto positivo ou negativo. Hoje eu estou meio numas bolhas, então ele é positivo. Mas, se eu vou em lugar onde a maioria das pessoas é branca, algumas me olham meio estranho, outras me acham exótica, querem tocar no meu cabelo, esse tipo de coisa desagradável.

Em 2014, eu comecei a participar dos desfiles do Instituto Brasil Chama África. Participei de um concurso de beleza, A Mais Bela Chama da África de Porto Seguro. Fiquei em terceiro lugar. No ano seguinte, fiquei em segundo lugar. Mas eu sou insistente, sabia que um dia eu iria chegar lá: em 2016, eu fiquei em primeiro lugar e fui a miss beleza negra da região. Dali, começaram a surgir uns trabalhinhos. Um amigo que tinha uma loja de roupas e precisava fazer umas fotos. Daqui a pouco, tinha uma amiga que fazia joias e chamava você.

Durante minha infância e adolescência, a gente não fazia muitas viagens, o dinheiro só dava para a gente viver sem muito aperto. Mas aos 18 anos comecei a viajar com o ID Jovem, um programa de governo para jovens de baixa renda poderem viajar e adquirir mais cultura. Você só pode ir de ônibus, são viagens interestaduais, e é muito concorrido: são duas vagas gratuitas e duas pagando meia. Pude ir mais vezes mais vezes para o Rio de Janeiro, para São Paulo…  Para Salvador, fui a trabalho, fazendo tradução para jornalistas italianos, de uma rádio. Foi incrível, porque a gente fez turismo étnico. A cada viagem, eu ganhava um pouquinho mais de conhecimento. Se não fosse o ID Jovem, não teria tido contato com as culturas de outros lugares tão cedo.

Aos 18 anos, comecei meu primeiro relacionamento: ele me pediu em namoro no dia do meu aniversário. Foi quando eu já tinha passado por todo o processo de autoaceitação, eu comecei a ter mais autoconfiança. Namorei um homem branco e estrangeiro, seguindo os passos de minha mãe (risos). Só que não deu muito certo. Ele era irlandês e a família dele era bastante preconceituosa. Ele conheceu todo mundo da minha família, e eu não conheci ninguém da dele. Começou a cair a minha ficha e a gente se separou, e um tempo depois eu comecei com o meu namorado atual.

Ele é de Salvador e mora lá até hoje. O Madiba me viu quando fui fazer um trabalho com o pessoal da rádio, porque a gente teve que ir na Secretaria de Turismo de Salvador, que fica próxima à Secretaria de Cultura. Ele trabalhava lá como assessor da secretária, me viu, me adicionou no Facebook e começamos a conversar. No início, eu não estava nem aí. Mas depois ele foi se mostrando uma pessoa interessante. Eu sou aquariana, e a gente vai muito mais pela inteligência do que pela beleza — ele é lindo, mas se fosse só isso eu não iria querer saber. Ele foi a Santo André para me encontrar, ficou três dias comigo. Voltou mais vezes e, depois de um tempo, estávamos namorando.

Ele é lindo, negro também. O Madiba também passou por um processos parecidos com os meus. A gente fala muito da solidão da mulher negra, mas temos que ter atenção para a solidão dos homens negros também. Eles também sofrem, e calados. Porque eu posso sofrer e chorar, mas homem não chora — homem negro, então… Por isso que hoje, no movimento negro, a gente tenta trazer novas narrativas do afroamor, que é um termo que eu adoro usar, que é o amor entre um negro e uma negra, um negro e outro negro, uma negra e outra negra. A gente se entende, sofreu por coisas parecidas. Ter essa troca de afeto entre a gente é importante.

Primeiro emprego

Meu primeiro emprego foi em 2017, como monitora de esporte e lazer em um resort em Porto Seguro. Como eu lidava diretamente com o público e a minha função era diverti-los, a minha timidez me atrapalhava bastante. Era uma sequela do racismo que sofri durante a infância e adolescência. Para vencer a timidez, fui estudar teatro, o que também foi bom para a minha formação.

No ano passado, vim para São Paulo visitar um amigo que morava na Itália. Só que esses dias em São Paulo foram os melhores da minha vida. Sair de um lugar pequenininho como Santo André e vir para São Paulo, que tem tudo — de cultura, arte, política, tudo que me interessa, vários jovens criando e realizando coisas — me encantou. E eu vi na moda uma possibilidade de vir para cá, porque, para trabalhar nessa área, tem que viver numa grande cidade.

Voltei para Santo André e selecionei fotos de trabalhos que eu tinha feito. E mandei para algumas agências de São Paulo. Para as que solicitavam experiência na área artística, eu enviava o portfólio artístico. Para as que eram só de moda, eu mandava o material referente a isso. Enviei para todas as agências possíveis. E a OXYgen me chamou.

Só que eu tinha acabado de começar na faculdade, na Universal Federal do Sul da Bahia. Estudei muito, passei em segundo lugar no curso, um Bacharelado Interdisciplinar em Arte — tudo a ver com o que eu fiz a minha vida inteira. Estava superfeliz e empolgada. E tinha começado também no emprego novo, como secretária administrativa em um condomínio — que não era nada incrível, mas era do lado da minha casa e tinha uma paisagem linda. Minha vida estava bem tranquila. Então eu fiquei: ‘Será que eu vou ou não?’.

Levei nove meses para fazer minha escolha. Trabalhei, juntei dinheiro. Fiz de tudo um pouco: vendi brigadeiros gourmet, fui garçonete e bartender, além de seguir com meu emprego. Também reformei uma casinha nos fundos do nosso terreno e passei a alugar, fazia café da manhã para os hóspedes. Só que, quando decidi vir, em fevereiro deste ano, o booker que tinha me chamado não estava mais na agência. Voltei à estaca zero. Fiquei uma semana em São Paulo para achar onde morar e um trabalho. Fui atrás de outras agências e consegui passar por duas.

Em maio, me mudei. Em cinco meses, muita coisa já aconteceu. Comecei a fazer um curso de dança e fui convidada para duas apresentações. Participei de um clipe do Baianasystem com Trokillaz, “Saci (remix)”. Também fiz espetáculos de dança com o coreógrafo Rubens Oliveira, no Com Uns, no teatro Sérgio Cardoso e no Instituto Tomie Othake. Participei de um curta. Meu primeiro desfile em São Paulo foi na Casa de Criadores, em julho, com o Isaac Silva, estilista baiano, negro, genial. E fui convidada para ir para Santo André fotografar para uma marca de roupas italiana chamada Lisa Corti.

Na volta, entrei minha agência atual, a Hutu Casting. É incrível, só para modelos e artistas negros. Faz um trabalho genial. Fiz campanha para a Salon Line, de produtos para cabelos, que foi incrível, porque eu me vi ali do jeito que eu sou: com meu cabelo crespo, com meu nariz largo, com a minha boca grande. A equipe era toda formada por negras. Foi muito bom para mim esse momento. Fiz um editorial lindo, com o pessoal do Coletivo Huma, com umas peças do Isaac também. Também fotografei para a marca carioca Complexo B, uma campanha que ainda vai sair. Foi demais. Fiquei muito feliz de conquistar esse espaço no Rio de Janeiro. E acabo de desfilar na São Paulo Fashion Week.

Já trabalhei muito aqui. Faço jobs como bartender, promotora, hostess, garçonete e intérprete, porque falo italiano e espanhol. Não fico parada, mesmo quando ganho um cachê legal, porque sei que São Paulo é uma cidade cara. É preciso muito controle financeiro para conseguir me manter aqui.

Hoje, estou um pouco mais estabilizada. Faço curso técnico em dança na Escola Técnica Estadual de Artes (ETEC) e trabalho como jovem monitora cultural no Centro de Culturas Negras Mãe Sylvia de Oxalá. Além disso, cada vez surgem mais trabalhos artísticos e como modelo.

Eu, meu cabelo crespo e meu narigão ainda temos muito pela frente, mas vibro de alegria a cada novo passo, a cada degrau que consigo subir. Estou muito feliz, me sinto vivendo um sonho. Às vezes paro para olhar como a minha vida já mudou ao longo desses cinco meses! Hoje recebo várias mensagens de meninas como eu, que estão superfelizes por ter alguém mais próxima da realidade delas, que se sentem representadas por mim. Isso é muito gratificante. É por isso também que estou aqui.”

Marie Claire