Educação é reverência à cultura ancestral e instrumento de luta, diz a professora Hitxá Pataxó

Adriana Pesca ou Hitxá Pataxó, como se autodenomina etnicamente, tem na educação um “lugar de florescimento, de se encher de saberes e transbordar para o outro”. É neste compasso que a professora indígena da etnia Pataxó, pertencente ao Território Indígena de Coroa Vermelha, construiu sua trajetória profissional na Educação Indígena. No Colégio Estadual Indígena Coroa […]


6 de outubro de 2021 09:58

Adriana Pesca ou Hitxá Pataxó, como se autodenomina etnicamente, tem na educação um “lugar de florescimento, de se encher de saberes e transbordar para o outro”. É neste compasso que a professora indígena da etnia Pataxó, pertencente ao Território Indígena de Coroa Vermelha, construiu sua trajetória profissional na Educação Indígena. No Colégio Estadual Indígena Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália, no Sul baiano, a educadora exerce a sua vocação educacional, somada às lutas afirmativas da identidade étnica de seu povo.

“Educação escolar indígena é lugar de protagonismo e autodeterminação, embora tenha como nascedouro um processo colonial repleto de violências, que se tornou hoje um lugar de fortalecimento de nossas lutas diárias”, reflete a professora Adriana, carregando em si a convicção de que, em 16 anos de experiência docente, a defesa pelo protagonismo estudantil nas vozes indígenas é a base do processo de ensino e aprendizagem. Desse modo, ela busca estimular seus alunos a assumirem a autoria das produções de seus povos, produzindo saberes por meio de sua cultura e dos processos de interculturalidade e que estes sejam tão valiosos quanto os saberes considerados universais.

A sua proposta em sala de aula, revela, “é que os estudantes se apropriem dos mecanismos e técnicas ocidentais, como a escrita alfabética, e desenvolvam com potência a produção textual, a leitura crítica e o poder de enunciação. A escrita, portanto, deve ser como uma flecha certeira e ligeira e que possa deixar a marca de um povo que existe e resiste como povos originários”, discursa. Através do incentivo à autoria indígena, Adriana luta para que a sociedade compreenda que os indígenas são responsáveis por escrever a própria narrativa e que não é a verdade do colonizador.

A paixão pelas letras começou desde muito cedo, quando ainda não conseguia sequer decodificar os códigos linguísticos. O pai, homem de pouca escolaridade, a presenteou com um gibi, marcando seu gosto pela leitura. Foi naquele momento que ela começou a construir suas primeiras narrativas. “Meus pais cursaram apenas as séries iniciais. Aprenderam a ler e escrever, mas não concluíram os estudos. De família humilde, minha mãe indígena da etnia Pataxó e meu pai, homem negro, muito cedo precisaram trocar os livros e cadernos pelo labor diário. Embora não tenham tido tantas oportunidades, sempre acreditaram que somente por meio do conhecimento e da escolarização seria possível que os filhos tivessem uma vida menos dura, de modo que tornaram os estudos uma prioridade para meus irmãos e eu”, relata.

A sua caminhada ancestral a inspirou a uma trajetória ligada ao retorno às suas raízes. “Durante nossa vida escolar, devido às dificuldades de

acesso à escola no local onde morávamos, meu pai optou por sair da aldeia e ir morar num distrito próximo, onde havia escola. Por isso, passamos parte significativa de nossas vidas em ambiente externo à aldeia, retornando sempre para visitar meus avós maternos. Esses caminhos de retorno, sempre me reconectavam com a minha cultura ancestral”, conta Adriana, licenciada em História e em Intercultural em Educação Escolar Indígena, respectivamente, pela Faculdade Santo Agostinho (FACSA) e pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), além de especialista em Ensino da Cultura Afro brasileira e Africana e, atualmente, mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

Ser educadora para Adriana também não está dissociado do ser mulher indígena, com todo o potencial transformador de sua coletividade. “Represento, portanto, um coletivo de vozes, de lutas e de territorialidades, cuja força maior foi fincada, como raiz, por quem veio antes e deixou um caminho de lutas iniciado. É meu dever levar adiante essa luta, apontando para os universos possíveis que, com a educação e pela educação, somos capazes de vislumbrar. Educação Escolar Indígena é um instrumento de luta pela dignidade de nossas existências, forjadas na luta e na sobrevivência, para que possamos contar a nossa própria história, buscando respeito aos nossos saberes, cultura e diversidade”.

Reportagem: Cláudia Lessa/ASCOM SEC