‘CVC explora destinos, mas não cuida. Vamos tentar corrigir isso’, diz CEO

Leonel Andrade fala sobre novo programa de sustentabilidade da empresa, turismo de massa e mudanças previstas até 2023


25 de maio de 2021 11:38

Como conciliar turismo de massa com sustentabilidade? É a questão que a CVC Corp pôs à prova com a adesão ao Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e o anúncio de uma ambiciosa estratégia de sustentabilidade a ser posta em prática até 2030. O grupo, que reúne marcas como CVC, Submarino Viagens, Trend, Almundo e Experimento, lançou o REprograma CVC Corp em busca de ser tornar uma referência no assunto no setor

“A empresa tem uma história longa, mas sempre se pautou muito por explorar destinos e produtos. Deu muito certo, por isso estamos aqui. Mas a companhia nunca entrou no protagonismo de um negócio de longo prazo nessa área”, me disse Leonel Andrade, CEO da CVC Corp, numa entrevista exclusiva para o Estadão. “A CVC não preserva, não cuida. Não é nenhuma vergonha admitir isso e estamos aqui para tentar corrigir.”

O REprograma irá envolver toda a cadeia do turismo em ações até 2030. A companhia quer encorajar boas práticas de sustentabilidade entre viajantes e parceiros, como hotéis e empresas de transporte. Antes de tudo, porém, o trabalho se concentra dentro da própria companhia, com funcionários e lojas.

“Cheguei à CVC sete meses antes do episódio do óleo do Nordeste. Dos nossos clientes, 70% sempre foram para a região. Todo mundo lamentava na empresa que tinha afetado o negócio. Mas o que a gente estava fazendo? A única ação que a gente fez foi continuar vendendo. Fingindo que não estava acontecendo nada. Não teve nenhum apoio à limpeza das praias, à comunidade. A gente seria a empresa que mais deveria ter ajudado.”

A companhia começa a pôr em prática o plano de sustentabilidade com o lançamento do Guia do Viajante Consciente e a criação do Instituto CVC para focar em educação, conservação e regeneração da biodiversidade brasileira e promover ações com comunidades anfitriãs. No próximo ano, planeja o Projeto Viagem Sustentável, para buscar mudanças nos processos internos da empresa, o que deve se refletir nos roteiros turísticos vendidos.

A tendência global de sustentabilidade não se encerra no setor de viagens, mas se estende ao ambiente de negócios como um todo. No mundo todo, acionistas e consumidores cada vez mais cobram das empresas que tenham boas práticas de ESG, sigla que se refere a Environmental, Social and Governance – em português, Ambiental, Social e Governança.

“Olhando para as questões de ESG, a gente não estava bem nem no meio ambiente, nem no público interno, nem na governança”, afirmou Andrade. A partir de 2022, com o REprograma CVC Corp, os executivos da companhia passam a ter sua remuneração atrelada a metas de ESG. Até 2030, 20% dos cargos de chefia devem espelhar diversidade e negros devem representar metade dos colaboradores.

Conversei com Andrade sobre o REprograma, a imagem da CVC historicamente atrelada ao turismo de massa e as mudanças que a empresa prevê até 2023. Ele pontuou os diversos temas:

Sustentabilidade dos destinos

“A empresa tem uma história longa, mas sempre se pautou muito por explorar destinos e produtos. Deu muito certo, por isso estamos aqui. Mas a companhia nunca entrou no protagonismo de um negócio de longo prazo nessa área”, disse o CEO. “A sustentabilidade tem ganhado notoriedade porque os clientes estão buscando experiências naturais. O ecoturismo está aí explodindo, e também as viagens de apoio a comunidades, para participar de projetos voltados ao meio ambiente.”

Ajuda às comunidades

“Cheguei à CVC em abril de 2020. Sete meses antes, tinha tido o episódio do óleo do Nordeste, 70% dos nossos clientes sempre foram para o Nordeste, para as praias. A pandemia misturou tudo, só que isso continua. Mas a CVC não fez uma ação em relação ao óleo do Nordeste. A única ação que a gente fez foi continuar vendendo. Não teve apoio local. A gente vive disso. A companhia sempre explorou o meio ambiente, que é seu core (atividade principal), mas nunca se posicionou para cuidar”, afirmou o Andrade. “Todo mundo lamentava na empresa que o óleo do Nordeste tinha afetado o negócio. Mas o que a gente estava fazendo? Fingindo que não estava acontecendo nada. Não teve nenhum apoio à limpeza das praias, à comunidade. A gente seria a empresa que mais deveria ter ajudado.”

Meio ambiente e diversidade

“De um ano pra cá esse assunto ganhou muita notoriedade (com a pandemia). No ano passado, eu disse ‘2021 vai ser o ano da sustentabilidade’. Por que não 2020? Porque a empresa tinha de sobreviver, e conseguiu (recebeu um aporte de R$ 700 milhões). Agora é hora de pensar no futuro, que tem tudo a ver com isso, principalmente com meio ambiente e diversidade”, disse o CEO. “Outro ponto dentro da companhia é o da gestão de mulheres. A companhia passou por problemas financeiros, que são públicos. Olhando para as questões de ESG, a gente não estava bem nem no meio ambiente, nem no público interno, nem na governança.”

Jericoacoara, entre os destinos fortes na CVC – Foto: Márcio Fernandes/Estadão

Biomas adotados pela CVC

“Vamos adotar dois biomas, que não estão definidos ainda. Vamos definir nos próximos meses. Vamos ouvir as pessoas, ouvir nossos turistas. Provavelmente vai ser um na praia e um de interior, para que a comunidade local atraia cada vez mais turistas. A gente não vai salvar o planeta, mas pode melhorar. Antes da pandemia, a empresa tinha de 15 a 20 milhões de viajantes por ano.”

Reeducação de funcionários

“Isso presume bastante tecnologia. É claro que vou ter de ensinar à distância, e envolver toda a cadeia do turismo. Não adianta o cara sair daqui e meu receptivo lá não ser um agente protagonista, não ter desde coisas básicas, como um saquinho de lixo, até informações. Eu trabalhei no setor de cartão de crédito e comparo isso com o trabalho de educação financeira, feito durante muitos anos”, disse Andrade. “A nossa ideia é ambiciosa, mas em primeiro lugar vamos mudar nós mesmos. Temos nossas lojas e os receptivos. Quando passa o ônibus escrito CVC, ele não é da CVC, mas é claro que é nosso, na cabeça do público é a CVC. Temos de arrumar a casa. Eu acredito que a gente estará com esse exemplo muito bem consolidado no fim de 2022. Aí a ambição começa a ser para fora, certificar fornecedores, hotéis.”

Conscientização do viajante

“Esse é um passo que a gente só pode dar depois”, disse. “Mas acho que o público massivo é quem mais vai aderir ao programa focado no Brasil porque ele vai costumeiramente para as mesmas regiões. A classe média é muito mais ligada à comunidade local. Vamos lançar um programa de fidelidade que vai contemplar visitas aos nossos biomas.”

Programa de fidelidade

“No novo cartão de crédito CVC, o viajante vai ganhar acumulando pontos e crédito. Tem também um programa de fidelidade, clube de recorrência de assinatura, programa de recompensa e geração de pontos no futuro. A pessoa pode juntar pontos do banco, viajando ou frequentando um restaurante, e transformar em moeda para viagem. Com uma vantagem: a gente tem todas as companhias aéreas e hotéis.”

CVC e turismo de massa

“Somos conhecidos como a empresa do ‘lá vêm os ônibus, vai chegar aquela turma’. E essa turma chega porque existem recursos naturais de alto valor, e a gente nunca fez um trabalho educacional nem para os que viajam nem para a comunidade local”, afirmou. “Existem dois lados sempre para tudo. Quando você olha para Jericoacoara (CE) e Porto Seguro (BA), a CVC gera muito emprego, e esses lugares sofreram muito mais do que outros. O turismo é parte importante do PIB de qualquer lugar do mundo. A CVC é viabilizadora de renda e emprego.”

“A CVC não preserva, não cuida. Não é nenhuma vergonha admitir isso e estamos aqui para tentar corrigir”, afirmou o CEO da CVC Corp.

Nathalia Molina (Estadão)