Comunidade indígena se reinventa com vendas on-line

Povos indígenas que sobrevivem do comércio e turismo das cidades baianas, especialmente no sul da Bahia


19 de julho de 2020 15:56

Reinvenção. Palavra de ordem em meio a uma pandemia que obrigou, de certa forma, todos a buscarem alternativas para diversos setores da vida. Com o trabalho não foi diferente. Pessoas e empresas tiveram que readequar suas formas de trabalho, venda e divulgação de produtos. Em cidades grandes e pequenas, todos foram atrás dessas alternativas, que, quase sempre, têm a internet como maior facilitadora.

De acordo com o IBGE, no Brasil são cerca de 7.103 localidades indígenas, segundo dados divulgados neste ano, e 896.917 indígenas contabilizados no último censo demográfico de 2010.

Povos indígenas que sobrevivem do comércio e turismo das cidades baianas, especialmente no sul da Bahia, se viram sem fonte de renda com o início do isolamento social, por causa do novo coronavírus. Com o comércio fechado, a forma para continuar o trabalho foi com o apoio da internet.

É o caso da família de Estevita Queiroz, de Coroa Vermelha, Santa Cruz Cabrália. Sua mãe, Celma Pataxó, costura e confecciona bolsas e mochilas para vender no comércio indígena local. Como seus compradores são essencialmente turistas, com a chegada da pandemia ela ficou cerca de três meses com a produção parada e precisou do apoio da filha para continuar com as vendas.

“Essa foi a forma que encontramos para vender. Sempre trabalhei com isso, todos me conhecem pela costura, que herdei da minha mãe”, diz Celma, que já doou mais de 300 máscaras para comunidades indígenas desde que começou a vender pelas redes sociais.

Via correios

Estevita realiza a divulgação dos produtos no Instagram e consegue, dessa forma, garantir as vendas para a mãe. “Ela ficou completamente perdida com o fechamento do comércio”, conta. Os produtos são entregues via correio, para diversas cidades brasileiras.

Com Carla Wany não foi diferente. A artesã produz brincos, colares e outros acessórios com miçangas, e vendia principalmente em Salvador, onde mora e faz faculdade. Em março, ela voltou para a comunidade indígena Tuxá, na cidade de Rodelas, no norte da Bahia, onde vive a sua família.

De lá para cá, decidiu criar uma página na internet, seu principal canal de vendas atualmente. “Agora consigo atingir outros públicos que nunca pensei em vender. É interessante porque a gente quebra barreiras, e meus produtos podem chegar a todo o país”, analisa. As vendas de Carla tiveram um aumento em torno de 40%.

Para ajudar os artesãos e comerciantes locais, William Matos ou Tukumã Pataxó, como é conhecido pelos mais de 21 mil seguidores do Instagram, utiliza a sua influência para divulgar os produtos de outros indígenas.

O jovem de 21 anos diz que viu a demanda por anúncios crescer absurdamente com o início da pandemia, porque os donos dos negócios perceberam que a divulgação dele tem dado resultados positivos nas vendas. “Até faço a venda de algum produto que uso e já passo para o dono do negócio o pedido encaminhado”, diz.

Tukumã viu o desejo de mostrar a vida das comunidades indígenas virar, de hobby, um trabalho de influenciador digital. Ele conta que nem cobra pelo trabalho para amigos e parentes indígenas, porque sabe que o momento não é dos melhores e acredita que precisa fortalecer a rede de apoio: “A gente precisa ajudar os que estão próximos e dar mais visibilidade ainda para nossos povos”.

Terapia online

E não são apenas vendas que são facilitadas com a internet. Ubiraci Pataxó também pode dar continuidade, de forma online, aos seus atendimentos. O educador e terapeuta, que viajava o mundo para realizar sessões de terapia, agora faz tudo nos espaços já conhecidos da sua casa – ou na praia.

Filho de pajé, Ubiraci trabalha a fé e espiritualidade de cada um durante as sessões. Por isso, ele diz que tem sido um desafio fazer tudo através de uma tela de computador: “É preciso mais sensibilidade. Como trabalho com corpo, mente e espírito, pela internet é muito mais difícil você manter uma conexão com o outro”.

Para ele, que, além das sessões individuais, realiza rodas de terapia integrativa comunitária, o trabalho com um grupo grande requer habilidade: “A adaptação que eu tenho feito é que a espiritualidade que está em mim possa chegar a você através das minhas palavras”. Há 10 anos Ubiraci trabalha com terapia comunitária e, no momento, tem atendido grupos de mais de 50 pessoas.

De acordo com ele, a procura por terapia tem crescido na pandemia. Por dia, ele atende em média cinco pessoas, sendo que antes eram duas por semana: “Alguns dias eu sento para trabalhar às 8h e só paro às 22h”. Ele também diz fazer atendimentos durante as madrugadas. “Tem aumentado muito a demanda, não só no atendimento individual, mas também nas rodas, que eu tinha cerca 16 pessoas e agora chega a 100 pessoas online”.

As terapias em grupo são gratuitas, realizadas por meio da Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa (Abratecom), Associação Brasileira de Psiquiatria Social (Apsbra), junto com o Ministério da Saúde.

Para o educador, os atendimentos online vieram para ficar: “As sessões a distância, apesar de diferentes das presenciais, me dão a possibilidade de cuidar de quem está do outro lado do mundo. Como cuidador de pessoas, não tem salário afetivo melhor”.