Uma dor que não se fala: Bahia registra um suicídio por dia em 2017

CORREIO ouve quem tentou se matar; veja onde buscar ajuda “Vai passar… ”, “É assim mesmo…” eram respostas que Amanda Monteiro ouvia quando contava como se sentia. Mas nos momentos em que estava triste e angustiada, achando que não tinha lugar no mundo, a jovem de 22 anos não queria escutar nada. “Só queria não […]


27 de novembro de 2017 09:57
CORREIO ouve quem tentou se matar; veja onde buscar ajuda

“Vai passar… ”, “É assim mesmo…” eram respostas que Amanda Monteiro ouvia quando contava como se sentia. Mas nos momentos em que estava triste e angustiada, achando que não tinha lugar no mundo, a jovem de 22 anos não queria escutar nada.

“Só queria não me sentir sozinha”, lembra a estudante de enfermagem. O sofrimento era tanto que ela tentou suicídio três vezes em duas semanas.  “Nos momentos de dor, a gente não quer que o outro esteja ali. A gente quer que ele seja: seja amável, seja gentil”, destaca, seis meses depois.

Diogo Garrido preferia guardar tudo para si, por receio que seus sentimentos fossem encarados como drama. Nas vezes em que falou, o estudante de Letras escutou dos amigos e da família: “É uma fase, vai passar”.

pós duas tentativas de suicídio e três meses de internação em uma clínica particular, o jovem de 24 anos faz questão de contar o que vem enfrentando para alertar outras pessoas sobre o tema: “dor não tem régua, não existe uma medida universal. Cada pessoa sabe o que está passando”.

O suicídio ainda é tabu, embora represente a causa de morte de aproximadamente um milhão de pessoas no mundo por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Na Bahia, a dor que não se fala mata uma pessoa por dia. Até 9 de novembro de 2017, o estado registrou oficialmente 373 suicídios – 23% dos casos foram cometidos por jovens entre 15 e 29, como Amanda e Diogo, e 9% por idosos acima de 70 anos.

No Brasil, suicídio é a terceira causa de morte na juventude, atrás apenas de homicídios e acidentes de trânsito, de acordo com o Mapa da Violência (2014).

Os idosos representam as maiores taxas no país, com 8 suicídios para cada 100 mil habitantes. Entre 2002 e 2012, o Brasil passou de 4,4 para 5,3 suicidas por 100 mil habitantes, o que representa um crescimento de 20,3%. Em 2012, a Bahia tinha uma taxa de 3,4 suicídios por 100 mil habitantes, com um aumento de 92% no mesmo período.

Em 2016, foram computados no estado 412 suicídios de pessoas de distintas classes sociais, gêneros, escolaridades e profissões. A taxa foi de aproximadamente 2,7 suicidas por 100 mil habitantes, mas isso não significa que a luz amarela deva ser desligada.

Os números, inclusive, podem ser mais altos, pois nem todas as ocorrências são notificadas, o que é obrigatório no sistema de saúde brasileiro desde 2014. Além disso, alguns casos entram em outras estatísticas, como acidente de trânsito, por exemplo.

Sinais
Muitas mortes por suicídio poderiam ser prevenidas se os sinais e fatores de risco associados ao ato fossem discutidos abertamente, não somente no Setembro Amarelo – campanha que há três anos alerta os brasileiros sobre a necessidade de se falar sobre o tema.

“Os primeiros sinais são manifestações de sofrimento psíquico. A pessoa fica triste, mais isolada, não necessariamente chorando. Muda o comportamento de forma brusca, passa a ser agressiva, irritadiça. É importante estar atento”, diz a psicóloga Soraya Carvalho, coordenadora do Núcleo de Prevenção do Suicídio (Neps), do Centro Antiveneno da Bahia (Ciave), do Hospital Roberto Santos.

Amigos e parentes próximos terminam tendo os primeiros contatos com as ideações suicidas de um indivíduo que sofre uma dor existencial. Quando isso acontece, é importante acolher a pessoa e estar disposto e preparado a ouvir sem julgamentos as intenções de tirar a própria vida. Elas aparecem direta ou indiretamente, por meio de frases como “se pudesse, eu dormia e não acordava”“minha vida não tem sentido”“eu sou um fardo” ou “morrer seria um alívio para mim”.

Especialistas indicam que a melhor maneira de lidar com a questão é perguntar da forma mais direta possível: “Onde está doendo?”“O que está acontecendo com você?” “Como eu posso te ajudar?”. E, em seguida, buscar acompanhamento psicológico e psiquiátrico para o indivíduo.

“A pessoa  com ideação suicida está com pensamento distorcido em relação a si, à realidade, à sociedade. Não é uma coisa abrupta. Isso pode começar de maneira insidiosa, pouco aparente e, se não é tratada de pronto, vai ficando aparente, incapacita para as atividades da vida”, analisa Sandra Peu, diretora da Associação Psiquiátrica da Bahia (APB) e coordenadora do Setembro Amarelo em Salvador.

Apesar de existir uma correlação grande entre suicídio e doenças mentais, como  depressão, transtorno de humor bipolar, dependência de álcool e outras drogas psicoativas, não se pode determiná-las como as únicas causas.

“Nem todo mundo que se mata está deprimido, nem todo deprimido se mata. Nem todo mundo que quer morrer, quer se matar. Na verdade, a pessoa quer viver. Ela quer sanar o sofrimento, uma dor desmedida na vida que tem. É esse o tempo que a gente tem para trabalhar, para cuidar desse sujeito, para que ele possa enxergar outras formas de vida”, afirma Soraya.

Nem sempre o caminho até o serviço de psiquiatras e psicólogos é rápido e simples. Além dos estigmas sociais, a própria rede de saúde pública é restrita.

Fila de espera
Na Bahia, o Neps é o único órgão especializado em prevenção do suicídio.  Fundado há 10 anos, o núcleo atende cerca de 300 pessoas e neste momento conta com fila de espera.

O trabalho que começou com o atendimento a pacientes que davam entrada no hospital por tentativa de suicídio, hoje alia o tratamento convencional psicoterápico e médico com ações de prevenção que trabalham as possibilidades de produção de quem já tentou suicídio, como leitura, rodas de leitura, cinema e jornal, envolvendo a rede em torno delas.

Antes de fundar o Neps, Soraya Carvalho trabalhou 16 anos atendendo pessoas que já tinham tentado suicídio no Roberto Santos.

“A reincidência baixou muito. Um dos fatores de risco mais importantes a considerar no suicídio é a tentativa de suicídio anterior. Quem quer se matar avisa”, destaca Soraya.

E os relatos de quem é atendido pelo núcleo mostram que é possível acreditar na vida, apesar das dores existenciais. “Depois de todos esses anos [de sofrimento], eu só vim realmente ter esperança de que eu posso ter uma vida normal, mesmo com os traumas e as dores que eu já passei, quando conheci o Neps e outras pessoas que têm problemas e transtornos semelhantes ao meu”, conta Amanda, que concilia o tratamento com as aulas na Universidade Federal da Bahia (Ufba).