Bahia registra 79 PMs afastados das ruas por transtornos mentais

Sobrecarga diária, problemas pessoais, conflitos de adaptação à rotina militar e estresse são algumas das causas para o adoecimento psíquico da corporação


5 de abril de 2021 12:17

A Bahia possui, atualmente, 79 policiais militares afastados do serviço por transtornos mentais. A informação é da Junta Médica do Departamento de Saúde da Policia Militar da Bahia (PMBA). Ainda segundo a entidade, esses agentes foram realocados para o serviço administrativo, fora das ruas, ou estão temporariamente afastados. Entre as causas para o adoecimento psíquico dos profissionais estão desde a sobrecarga de trabalho até operações perigosas, passando pela dificuldade de adaptação à vida militar e até problemas pessoais.

Para o presidente da Associação de Praças da Polícia e Bombeiro Militar da Bahia (APPMBA), Roque Santos, o número de colegas que passam por problemas mentais é ainda maior. “Nem sempre quem está com alguma dificuldade pede ajuda e isso gera subnotificação. Nós precisamos dar uma atenção maior à saúde mental do policial”, defende. 

Roque explica que os policiais militares vivem diversas situações de pressão e sobrecarga. “O PM é um ser humano também, mas pressionado, que não tem direito de errar por causa das cobranças e faz atividades cada vez mais letais, operações perigosas, situações traumáticas. São tantas coisas que acontecem. Problemas psicológicos podem afetar todas as pessoas, mas o PM trabalha fardado, armado e tem certas obrigações. Precisamos de mais atenção do governo e do comando geral”, argumenta.

Em nota, a PM informou que o Departamento de Saúde, que funciona na Vila Policial Militar do Bonfim, tem um psiquiatra titular, mais dois em estágio de formação e quatro psicólogos no centro de reabilitação profissional. Também é oferecido atendimento psicológico em todas as grandes cidades do estado. “No momento, são 50 psicólogos que fazem palestras preventivas e atendimento de demandas pessoais e ocupacionais”, diz o texto.

O serviço na Vila Policial Militar atende policiais e seus dependentes diretos (cônjuges e filhos). As sessões são presenciais e ocorrem uma vez por semana. As marcações são realizadas através do telefone 71 3116-6384.

Com experiência de três anos no acompanhamento de policiais militares, o psicólogo Edilson da Paz explica que a saúde mental dos profissionais de segurança não depende somente de garantir acesso à psicólogos ou psiquiatras. Para ele, é preciso que a temática seja rotineira na instituição, admitindo que situações de dificuldade e sofrimento estão diretamente relacionadas ao fazer da polícia e à qualidade do serviço ofertado.  

“É preciso ampliar e proporcionar programas e projetos institucionais com esta temática [da saúde mental], facilitando ações coletivas e de ampliação do repertório de autocuidado pessoal. Não tornar a saúde mental algo pontual e investir ações de caráter rotineiro que possam prevenir e promover a saúde”, argumenta o psicólogo.

Já a psiquiatra Sandra Peu lembra que, embora os policiais passem diariamente por situações potencialmente prejudiciais para a saúde mental, o preconceito contra doenças mentais no meio ainda é significativo. “A psicofobia no meio militar é significativa. Se um policial diz ao superior que está em tratamento, ele é mal visto, menosprezado… isso não é exclusivo da Bahia”, destaca a especialista, que também tem experiência no atendimento de policiais.    

Sandra, que atende através do Planserv, o plano de saúde dos agentes de segurança do Estado, explica que muitos agentes preferem procurar o serviço privado por vergonha ou medo de que seus colegas saibam que ele está passando por algum problema. “Eu recebo policiais muito desgastados emocionalmente, abalados e com sérios problemas”, diz.  

Vivian Anjo, 43 anos, assistente social da APPMBA, faz terapia com psicólogo. Ela não tem vergonha de dizer isso, pelo contrário, usa seu exemplo como forma de estimular seus colegas para perderem a vergonha. “Como assistente social, eu atendo policiais com as mais variadas demandas, alguns até em situação de vulnerabilidade, em processo de adoecimento e, se a gente não souber lidar, adoece também. Por isso, antes mesmo da pandemia comecei a terapia, mas depois que tive covid, o que foi um período difícil, intensifiquei o tratamento”, conta 

Quando casos de policiais nessa situação de adoecimento mental chegam ao conhecimento de Vivian, ela busca acolher, orientar e direcionar ao atendimento profissional. “Mas temos muita dificuldade em convencê-los a reconhecer a importância do tratamento. Ainda existe o preconceito de consultar o psicólogo ou ir para a psiquiatra e isso atrapalha muitas vezes, faz com que ele se deixe levar a ponto de chegar em um estado de surto”, lamenta.  

Vice-presidente da APPM, a policial Alaice Gomes afirma que um número grande do efetivo passa por algum problema da saúde mental. “A gente sempre atua numa área que não é fácil. As demandas sociais, ausência de políticas públicas, de um profissional de saúde recaem na atividade policial. Nós precisamos buscar ajuda, todo efetivo precisa de terapia”, defende.  

Correio24horas